O elo perdido

Foto/Divulgação

Por Gisele Bortoleto

Há poucos dias, a apresentadora de televisão Eliana, então grávida de quatro meses, usou as
redes sociais para anunciar o afastamento do programa que ela apresenta aos domingos no
SBT. O motivo? Determinação médica de repouso devido a uma condição conhecida como
descolamento prematuro da placenta (DPP), que pode ocorrer a partir da 20ª semana de
gestação.
Em casos extremos, pode levar à morte do feto e da mãe. A mortalidade materna chega a
acontecer em 3% dos casos, com piora progressiva quanto mais se demora o diagnóstico. “Para
o feto, o prognóstico é pior: a morte ocorre em cerca de 100% nos casos graves, 65% nos
moderados e 25% nos leves”, afirma a ginecologista e obstetra Clery Ortiz Pagoto Reda,
professora da Faceres.
A funcionária pública R.B. conhece bem o problema enfrentado pela apresentadora Eliana. Ela
teve descolamento de placenta em duas de suas quatro gestações. Na primeira delas, o bebê
morreu aos quatro meses de gestação, apesar de todo o repouso absoluto que vez para tentar
evitar a evolução do quadro. Pouco mais de seis meses depois, uma nova gestação. “Tive o
mesmo problema e passei praticamente a gestação toda indo e voltando ao hospital, onde
ficava dias internada todas as vezes. Não podia dar um passo que o problema se agravava, mas
consegui levar até o fim”, conta. Nas duas gestações seguintes não houve nenhum problema.
A identificação do descolamento é feita através de diagnóstico clínico de um obstetra ou
ginecologista, e confirmada por exame de ultrassom. Em seguida, coloca-se a gestante em
repouso, para evitar que a placenta descole mais e o caso complique. Então se inicia o tratamento para corrigir o déficit que levou ao descolamento; explica a ginecologista Clícia Quadros.
A placenta é um órgão fetal altamente especializado, responsável pela nutrição fetal, produção
hormonal, proteção imunológica e excreção dos metabolitos fetais. É o único elo de ligação
entre a mãe e o feto. Leva nutrientes, faz as trocas entre oxigênio e gás carbônico para a respiração do feto, produz a progesterona para a manutenção da gestação e confere a imunidade passiva do feto seletivamente.
A placenta adere ao útero através das vilosidades placentárias, como se fosse um velcro. Não
existe contato direto entre o sangue da mãe e feto. A placenta é o que nutre o bebê.
Funciona como uma esponja aderida à parede do útero, que retira os nutrientes do sangue
materno e passa para o bebê através do cordão umbilical; explica ginecologista e obstetra
Élvio Floresti Junior.
O descolamento prematuro de placenta é a separação da placenta normalmente aderida ao
útero antes do parto. Ocorre em torno de 0,4% a 3,5% dos casos, afirma o ginecologista
obstetra José Vicente Maia, professor da Faceres.

Tratamento
O tratamento do problema é individualizado em função da gravidade por conta da extensão,
da idade gestacional e do grau de comprometimento do feto e da mãe. Uma coisa é certa: o
repouso deve ser absoluto e, em casos graves, internação hospitalar com controle da área de
descolamento e monitoramento da vitalidade.
Pode ser desde um tratamento conservador, com repouso materno e medicações, mas
muitas vezes trata-se de uma emergência e o parto deve ser rapidamente realizado devido ao
risco de morte fetal, diz a ginecologista obstetra Paula Oshiro.
Além do repouso absoluto, é preciso evitar atividades físicas e fazer uso de medicamentos que
relaxam a musculatura uterina, além do uso de corticoides injetáveis para acelerar a
maturidade pulmonar, que é a maior causa de mortalidade dos prematuros.
Não é um problema comum, mas pode acontecer com qualquer gestante. A incidência é
maior em mulheres com mais de 35 anos. Isso porque nessa faixa etária pode haver menor
produção de progesterona e também menor vascularização da parede do útero, dois fatores
muito importantes para a fixação da placenta, diz a ginecologista Clícia Quadros. No entanto,
pode acontecer com mulheres mais novas, principalmente fumantes, hipertensas, com
hipotireoidismo, que já tenham realizado uma cesárea ou que apresentem alta sensibilidade
no útero.
Saiba mais
Como ocorre – O descolamento da placenta acontece quando alterações entre vasos do útero
e vasos placentários, que estão em íntimo contato no local de inserção da placenta com o
útero, e por motivos ainda não bem esclarecidos, se rompem e perdem adesão, formando um
coágulo. Neste local, a placenta deixa de fazer suas trocas, prejudicando a área fetal irrigada.
Causas predisponentes – Hipertensão arterial (a principal), consumo de bebida alcoólica, fumo e drogas, cordão curto ou alterações de estruturas uterinas, miomatose, ruptura prematura da bolsa amniótica, infecções, traumas externos como acidentes e até mesmo movimentos excessivos fetais, idade materna, mãe com mais de três filhos, descolamento de placenta em gravidez anterior ou até indeterminadas.
Maior incidência – A partir do segundo e terceiro trimestres da gestação, principalmente em
mulheres com mais de três filhos.
Principais sinais – Os sinais são sangramento vaginal ou não (quando fica retido entre a
placenta e o útero), contrações uterinas com dor tipo cólica, variação do batimento
cardiofetal, palidez, taquicardia ou sinais de mal-estar geral da mãe. Os sinais estão presentes
em intensidades relativas à área de descolamento e diretamente proporcional à piora do
prognóstico.
Riscos – São relacionados diretamente a área e o local do descolamento. Áreas próximas a 40%
evoluem para óbito fetal e grande risco à mãe (o feto perde contato com a mãe ainda dentro
do útero).

Principais complicações
O descolamento prematuro da placenta tem como principais complicações a prematuridade
do bebê, a morte do feto dentro do útero, a interrupção da gestação durante sua evolução e a
restrição do crescimento fetal intrauterino.
O descolamento pode ser com sangramento externo ou sangramento oculto, que ocorre em
20% dos casos. Casos graves podem levar a óbito do feto e risco de morte da mãe, diz o
ginecologista obstetra José Vicente Maia.
Tudo vai depender da extensão do descolamento e da vitalidade do feto. Em um
acompanhamento de pré-natal, pode-se detectar descolamentos iniciais, e prontamente
tratados com melhor evolução, mas nada impedindo que ocorram abruptamente e evoluam
rapidamente com riscos de morte para mãe e feto.
Descolamento do óvulo
Os especialistas afirmam que é preciso diferenciar o descolamento prematuro da placenta do
descolamento placentário inicial, ou mais precisamente descolamento ovular, já que a
placenta só se forma definitivamente a partir da 10ª semana de gestação. Esse descolamento
ovular ou hematoma subcoriônico é muito comum no início da gestação e desaparece em
poucas semanas, raramente passando de 12 semanas, diz o ginecologista Élvio Floresti Junior.
Apenas o repouso é preciso e podem ser utilizados hormônios e relaxantes uterinos.

Fonte: Revista Bem-Estar, jornal Diário da Região
Leia mais: http://bit.ly/2yCDTpK

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